Graduação: Escala Brasileira x Escala Gringa
Um "7b" num guia europeu não é a mesma coisa que um 7b brasileiro.
Como funciona a escala brasileira
Diferente da maioria das escalas gringas, que resumem a via a um número só, o sistema brasileiro separa a dificuldade em duas partes — o que costuma ser apontado como sua principal vantagem.
Grau geral
Vai de 1º pra cima (e segue crescendo conforme abrem vias mais difíceis). Resume a dificuldade média da via inteira: distância entre proteções, exigência física, qualidade da rocha, tamanho. É o "quão dura é a escalada da base ao topo".
Grau do crux
I, II, III, IV, V, VI, VIsup e, a partir daí, VIIa, VIIb, VIIc, VIIIa... Isola só o lance mais difícil da via — o "quão dura é a parte mais dura". Até o VI usa "sup" como refinamento; do VII em diante, entram as letras a/b/c.
Duração, exposição e artificial
Vias grandes ou de montanha ainda podem levar D1–D7 (duração), E1–E5 (exposição a risco) e A0–A5 (dificuldade de trechos em artificial), geralmente separados por barra: ex. "6º, VIIa, A0".
As escalas "gringas" mais comuns
Escala francesa
A referência mais usada no mundo pra escalada esportiva: número + letra + eventual "+" (6a, 6a+, 6b, 7c...). Mede a dificuldade média da via, parecido com o grau geral brasileiro — só que num sistema só, sem separar o crux.
YDS (Yosemite Decimal System)
Notação "5.x" (5.9, 5.10a, 5.12c...). Padrão nos EUA e Canadá. Aqui no Brasil cada academia costuma ter sua própria convenção pra via indoor — pode ser a escala brasileira, a francesa ou um sistema próprio da casa — então vale confirmar na recepção antes de partir pra via.
UIAA (União Internacional de Associações de Alpinismo)
Números romanos com + e - (V, V+, VI-, VI...). Mais antiga, ainda aparece em guias de montanha e países de língua alemã. Foi a base histórica que inspirou o próprio sistema brasileiro.
Por que um 9a brasileiro não é um 9a francês
O sistema brasileiro nasceu do UIAA e, a partir do grau VII, passou a incorporar letras (a, b, c) emprestadas do YDS americano — criando um formato que parece a escala francesa (VIIIa se lê quase como "8a"), mas mede coisas diferentes. É uma coincidência de notação, não de dificuldade.
Mesmo nome, dificuldades bem diferentes
Um exemplo que mostra bem o tamanho do problema: o grau brasileiro "9a" (IXa) fica em torno de um YDS 5.12d — enquanto um 9a francês de verdade é um YDS 5.14d. Quase dois números inteiros de diferença, o equivalente a confundir escalada avançada com nível de elite mundial.
Pra completar a confusão, o próprio Brasil usa duas grafias pro mesmo grau: a oficial da CBME, em romano (VI, VIsup, VIIa), e a forma como a maioria dos escaladores realmente fala e escreve no dia a dia, em ordinal (6º, 6º sup, 7a). São a mesma coisa — só a caligrafia muda. Repare também como o "salto" brasileiro fica cada vez mais lento em relação à francesa conforme o grau sobe — é exatamente essa desaceleração que gera a confusão do "9a" lá em cima.
| BR oficial (romano) | BR (uso comum) | Francesa | YDS | UIAA |
|---|---|---|---|---|
| III | 3º | 4 | 5.0 – 5.4 | IV |
| IIIsup | 3º sup | 4+ | 5.5 | IV+ |
| IV | 4º | 4+ – 5 | 5.6 – 5.7 | V – V+ |
| IVsup | 4º sup | 5 – 5+ | 5.8 | VI- |
| V – Vsup | 5º – 5º sup | 5+ | 5.9 | VI |
| VI | 6º | 6a | 5.10a | VI+ |
| VIsup | 6º sup | 6a+ – 6b+ | 5.10b – 5.10d | VII- – VII+ |
| VIIa | 7a | 6c | 5.11a | VII+ – VIII- |
| VIIb | 7b | 6c+ | 5.11b | VIII- |
| VIIc | 7c | 7a | 5.11c – 5.11d | VIII |
| VIIIa | 8a | 7a+ | 5.12a | VIII+ |
| VIIIb | 8b | 7b | 5.12b | VIII+ – IX- |
| VIIIc | 8c | 7b+ | 5.12c | IX- |
| IXa | 9a | 7c | 5.12d | IX |
| IXb | 9b | 7c+ | 5.13a | IX+ |
| IXc | 9c | 8a | 5.13b | IX+ – X- |
| Xa | 10a | 8a+ | 5.13c | X |
| Xb | 10b | 8b | 5.13d | X |
| Xc | 10c | 8b+ | 5.14a | X+ |
| XIa | 11a | 8c | 5.14b | X+ – XI- |
| XIb | 11b | 8c+ | 5.14c | XI- |
| XIc | 11c | 9a | 5.14d | XI |
E segue subindo: as vias mais duras do mundo hoje giram em torno de 9c francês / 5.15d — o Brasil ainda nem tem vias documentadas nesse patamar.
Achou algo que não bate?
O sistema brasileiro, adotado pela CBME em 2007, define os nossos graus, mas não traz uma tabela oficial de equivalência com as escalas de fora. Por isso cada academia, guia ou site usa a sua, às vezes com um grau de diferença pra cima ou pra baixo. Use como referência, não como regra.
Se você conhece uma fonte confiável ou viu algum grau que não confere com a sua experiência, conta pra gente. A gente revisa e corrige.
Boulder: V-scale x Font
Boulder não usa nem a escala brasileira nem a francesa de vias — no Brasil, o mais comum é a escala V (americana), a mesma dos EUA. Guias e apps importados às vezes trazem a escala Font (francesa/europeia) como alternativa.
| Escala V (EUA) | Font (Europa) |
|---|---|
| VB – V0 | 3 – 4 |
| V1 – V2 | 5 – 5+ |
| V3 – V4 | 6A – 6B |
| V5 – V6 | 6C – 7A |
| V7 – V8 | 7A+ – 7B |
| V9 – V10 | 7C – 7C+ |
E segue subindo: a escala V vai até V17, no limite atual do esporte.
Na prática: como não se perder
Antes de comparar com o que você já escalou, confira qual escala está sendo usada no guia ou na ficha da via, pois o mesmo grau pode significar coisas bem diferentes de um sistema pro outro.
Trate toda tabela de conversão como aproximação, não fórmula exata. Elas variam de fonte pra fonte, especialmente nos graus mais altos.
Viajando pra fora, pergunte pra quem escala no local qual referência eles usam de verdade — muitas vezes é mais confiável que qualquer tabela.
Dentro do Brasil, o grau do crux (romano) costuma comparar melhor entre vias do que o grau geral, que é mais subjetivo e varia de escola pra escola.
Agora que os números fazem sentido
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